Análise
A crescente presença da China na América Latina: principais pontos da conferência da IBA em Punta del Este
Todos os painelistas têm ampla experiência de trabalho com colegas e contrapartes chineses. Suas intervenções destacaram nuances culturais importantes nas negociações, como a relevância do guanxi (relacionamentos), do mianzi (reputação) e dos princípios confucionistas, além da necessidade de se adaptar a diferentes…
Por Crystal Lo · Head of China Desk

Após o investimento de USD 3.500 milhões da China no porto de Chancay, no Peru, no fim de 2024, a edição do IBA Latinoamérica do ano passado, no Peru, foi marcada por intensos debates sobre projetos ligados ao país asiático. Neste ano, em Punta del Este, a conversa não perdeu força; pelo contrário, consolidou-se com um painel específico intitulado Investment Coming from China: M&A and Other Businesses and Their Challenges, copresidido por César Amendolara (Velloza Advogados, São Paulo) e Rafael Boisset (Philippi Prietocarrizosa Ferrero DU & Uría, Lima).
O painel de alto nível reuniu assessores jurídicos e especialistas de iniciativas apoiadas por algumas das empresas mais influentes da China:
- Fabiana Siviero (São Paulo), diretora jurídica da 99 (Didi Group, gigante chinesa de transporte por aplicativo);
- Alfonso Rebaza (Lima), diretor jurídico do porto de Chancay, da COSCO Shipping;
- Gillian Paredes Guerrero (Lima), da Luz del Sur (adquirida pela China Three Gorges Corporation);
- Javier Lozada (Buenos Aires), counsel na Bruchou & Funes de Rioja e presidente do conselho de administração da Câmara de Comércio Argentino-Chinesa.
Todos os painelistas têm ampla experiência de trabalho com colegas e contrapartes chineses. Suas intervenções destacaram nuances culturais importantes nas negociações, como a relevância do guanxi (relacionamentos), do mianzi (reputação) e dos princípios confucionistas, além da necessidade de se adaptar a diferentes estilos de trabalho por meio de uma comunicação constante e sofisticada.
Também observaram que o aumento das interações interpessoais está contribuindo para reduzir a distância cultural: cada vez mais profissionais chineses falam espanhol, adotam práticas locais — como a gastronomia — e recebem parceiros latino-americanos em suas sedes na China.
Ao comparar o apetite chinês por fusões e aquisições com o de seus pares europeus, o painel identificou três características distintivas:
1. Visão de longo prazo: os investidores chineses costumam esperar décadas para obter rentabilidade, ao contrário de outros participantes, que priorizam retornos imediatos. Com 14 planos quinquenais concluídos e o 15º (2026–2030) em andamento, a China demonstra persistência contínua.
2. Objetivos estratégicos: os investimentos respondem a prioridades nacionais ligadas ao bem-estar da população, como veículos elétricos, alimentos e matérias-primas.
3. Resiliência: mesmo diante de mudanças políticas ou regulatórias na América Latina, os planos chineses se ajustam e perduram.
O painel também abordou os desafios associados a essas oportunidades, destacando as tensões geopolíticas e a crescente preocupação com a cibersegurança e a proteção de dados. Também ressaltou a necessidade de uma abordagem rigorosa em matéria de ESG na região.
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