Análise · República Dominicana
Carreira política para advogados: oportunidades, motivação e possíveis consequências para o perfil profissional
Os advogados representam uma das profissões mais expostas ao público no mundo. Muitos acabam se tornando políticos profissionais. A formação, o raciocínio lógico, a oratória, a capacidade de argumentação e as habilidades de comunicação favorecem esse caminho.

Os advogados representam uma das profissões mais expostas ao público no mundo. Muitos acabam se tornando políticos profissionais. A formação, o raciocínio lógico, a oratória, a capacidade de argumentação e as habilidades de comunicação favorecem esse caminho.
Até hoje, ninguém elaborou estatísticas sobre a profissão de origem mais comum entre os chefes de Estado do mundo. Em princípio, é difícil encontrar uma área profissional da qual não tenha surgido um presidente, um chanceler ou, por exemplo, um secretário-geral. Uma coisa é certa: advogados estiveram entre os governantes em diferentes períodos históricos.
Muitos acreditam que a experiência na política pode trazer benefícios para o advogado e seu escritório. O trabalho no setor público permite estabelecer bons contatos e compreender melhor os procedimentos internos das instituições estatais. Isso é especialmente importante para advogados especializados em direito público ou relações governamentais.
Na minha opinião, ao decidir iniciar uma carreira política, o advogado precisa se preparar para esse processo. Primeiro, é bom planejar essa transição e começar com antecedência a trabalhar sua marca pessoal, não apenas no meio jurídico, mas também como figura pública. Segundo, eu recomendaria preparar um plano de gestão de crises reputacionais, para estar pronto para possíveis ataques informacionais, muito frequentes nesse meio. A melhor gestão de crises é preveni-las.
O escritório também precisa levar em conta e se preparar para a possibilidade de um sócio responsável por uma área de atuação importante deixar o escritório, ainda que temporariamente, pois isso pode afetar a gestão da área e a percepção dos clientes.
Tudo depende da situação política de cada país
Ao avaliar se deve trocar a atuação na advocacia por um cargo no setor público, é preciso levar em conta a situação política do país. As experiências podem ser completamente diferentes em várias partes do mundo.
Na minha opinião, os Estados Unidos da América são o país onde foram criadas condições quase ideais para que advogados ocupem altos cargos no governo. Uma possível explicação para esse fenômeno é a existência de tradições políticas próprias dos Estados Unidos, que exigem dos políticos qualidades associadas sobretudo aos advogados. Além da capacidade de trabalhar com leis, área em que os advogados levam vantagem sobre profissionais de outras áreas, o legislador nos Estados Unidos precisa saber defender seu ponto de vista.
Em países com uma tradição partidária diferente, especialmente nos que adotam a forma parlamentar de governo, a proporção de advogados em altos cargos governamentais é muito menor. Para se tornar chefe de Estado, um político precisa menos de carisma pessoal do que da capacidade de organizar adequadamente o trabalho do partido, função em que pessoas de diferentes profissões podem ter sucesso.
Comecei minha carreira no mercado jurídico da Ucrânia, onde sempre houve um fluxo intenso de advogados para o setor público. Ao trabalhar com advogados ucranianos, costumava me preocupar com os possíveis danos à reputação do advogado e de seu escritório em caso de transição para o setor público. A situação política foi muito complicada nos últimos 15 anos, e havia muita concorrência não apenas entre os partidos, mas também dentro de cada força política. Pela minha experiência, posso confirmar que a maioria dos advogados que ingressaram na política teve consequências negativas para seus escritórios, sua atuação privada e/ou sua reputação profissional. Os negócios sempre foram o primeiro alvo de ataques em campanhas negativas na mídia, especialmente no caso de fundadores ou ex-sócios dos escritórios.
Em alguns países da América Latina, observo situações diferentes. Em muitos casos, é absolutamente normal sair do escritório para entrar na política e voltar alguns anos depois com novas experiências e contatos. Em outros, é preciso estar muito bem preparado para mitigar possíveis riscos.
O importante é sempre avaliar a situação atual de cada país e as possíveis consequências para o escritório e para o advogado.
Motivação
Tive a experiência de trabalhar com advogados que se sentem felizes por poder oferecer sua experiência e seus conhecimentos e contribuir para melhorar o bem-estar de seu país. Há diferentes maneiras de fazer isso: alguns vão para o governo, outros participam de projetos voluntários. Em outros casos, advogados participam ativamente da elaboração de diversos projetos de lei. É claro que se trata de trabalho não remunerado: os advogados investem seu tempo, às vezes em detrimento de seus clientes e de suas famílias, para desenvolver um bom projeto para o país e para sua reputação.
Em geral, os advogados são os primeiros a acompanhar o sucesso de seus clientes quando eles compram ou vendem seus negócios, recebem recursos para desenvolver novas áreas ou expandem uma atividade existente. Mas também são os primeiros a perceber sinais de alerta quando seus clientes perdem muito dinheiro por causa do poder arbitrário, da corrupção, de políticas regulatórias imprevisíveis ou de uma situação econômica desfavorável. Por isso, devido às particularidades dos negócios, os advogados estão entre os primeiros a identificar mudanças no clima de investimentos e no nível de corrupção de cada país. Não é de surpreender que muitos queiram começar a mudar a situação para melhor com as próprias mãos.
Natalia Khomyshyna é consultora em marketing jurídico, comunicação de crise e comunicação política. Tem quase 20 anos de experiência em marketing e relações públicas em diferentes setores, incluindo 15 anos em cargos de liderança no setor jurídico. Presta assistência no planejamento estratégico de escritórios de advocacia, no desenvolvimento de negócios e no planejamento de marketing.
Auxilia escritórios de advocacia em relações com a mídia, gestão de eventos, participação em rankings jurídicos, CRM, campanhas de marketing digital, entre outras atividades. Natalia tem ampla experiência em comunicação de crise. Gerenciou vários projetos relacionados a temas politicamente sensíveis e a relações governamentais, incluindo projetos de Litigation PR para clientes de escritórios de advocacia.