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Entrevista
Inspiring Women in Law - Entrevista com Melissa Diaz, responsável por Compliance para a América Central e o Caribe na Inchcape
A Latin Counsel conversou com Melissa Diaz, gerente e responsável por Compliance da Inchcape para a América Central e o Caribe, sobre os desafios e as oportunidades que seu trabalho oferece e as particularidades de atuar com compliance no setor automotivo.
Latin Counsel conversou com Melissa Diaz, gerente e responsável por Compliance da Inchcape Centroamérica y el Caribe sobre os desafios e as oportunidades que seu trabalho oferece e as particularidades de atuar com compliance no setor automotivo. Ao longo de toda a carreira, especializou-se em direito corporativo, ambiental e compliance, além de ser auditora certificada em normas ISO. Melissa é bacharel em Direito pela Universidad Escuela Libre de Derecho, da Costa Rica, especialista em direito notarial e registral e engenheira ambiental. Está concluindo um mestrado em Compliance e Gestão de Riscos na Aden Business School e na George Washington University. É membro do Colegio de Abogados de Costa Rica e ocupou vários cargos nos setores de bens de consumo, cimento e construção. Latin Counsel: Como você descreveria o trabalho com Compliance na Costa Rica, no Panamá e no Caribe no setor automotivo? Melissa Diaz: Atuar com compliance na América Central e no Caribe apresenta uma série de desafios e oportunidades únicos. Aqui estão alguns aspectos importantes. 1. A diversidade regulatória. 2. O processo de adaptação às políticas regionais. 3. A cultura organizacional. Cada mercado tem seu próprio marco legal e regulatório, o que exige uma adaptação cuidadosa na implementação de nossas políticas. Isso é especialmente importante em temas como combate à corrupção, proteção de dados e questões trabalhistas. Além disso, a cultura empresarial influencia significativamente o sucesso da implementação do programa de Compliance. Isso significa que, sem um diálogo adequado entre a área de negócios e Compliance, o programa seria adotado por obrigação, e não por convicção. Em resumo, atuar com Compliance na América Central e no Caribe é um processo dinâmico que exige uma abordagem adaptável e proativa, centrada na ética e na cultura organizacional. LC: Quais são os principais desafios regulatórios enfrentados atualmente por esse setor? Melissa Diaz:
Comércio internacional e tarifas: tensões comerciais e mudanças nas políticas tarifárias podem afetar as cadeias de suprimentos e os custos de importação e exportação.
Regulamentação ambiental: com a pressão crescente para reduzir as emissões de carbono, os fabricantes precisam cumprir normas mais rigorosas sobre emissões e sustentabilidade. Isso inclui a transição para a venda de veículos elétricos e híbridos, adaptada a cada mercado específico.
Regulamentação sobre lavagem de dinheiro: esse é um desafio significativo, que afeta tanto a economia quanto a estabilidade social e política da região. O combate à lavagem de dinheiro na América Central e no Caribe exige uma abordagem abrangente, que envolva governos, setor privado e sociedade civil, fortaleça as instituições e promova a cooperação regional e internacional.
Em outras palavras, o setor automotivo enfrenta um ambiente jurídico dinâmico e complexo, que exige adaptabilidade e compliance proativo por parte da sociedade civil e dos setores empresarial e público de cada mercado.
LC: Quais são os principais riscos de compliance enfrentados pelo setor automotivo na CARCAM e como você os administra em sua função de responsável pelo programa de compliance regulatório da região?
MD:
Todas as empresas estão sujeitas a riscos de compliance, mas, na Inchcape, nos preparamos continuamente, atualizando políticas e processos. Na Inchcape, o programa de compliance se baseia em cinco pilares: dados pessoais, responsabilidade das pessoas jurídicas, lavagem de dinheiro, corrupção e suborno e concorrência leal. Fazemos um acompanhamento rigoroso e seguimos um cronograma de conscientização e treinamento contínuos sobre esses temas para administrar os riscos relacionados a esses pilares.
Na minha função, acredito que um programa de compliance no papel parece muito bom, mas não será eficaz sem um trabalho voltado à mudança da cultura empresarial. Isso exige um trabalho sob medida para cada país (mercado), que leve em conta o público-alvo e fale a sua língua.
Os riscos diminuem com treinamento contínuo e orientação sobre políticas internas claras e alinhadas aos negócios. Assim, garantimos o compliance e também a aplicação adequada dessas políticas.
Monitoramento, auditorias, canais de denúncia, avaliação de riscos, análise de terceiros e parceiros comerciais são apenas alguns dos muitos elementos que devem ser considerados e desenvolvidos para identificar e saber administrar um risco associado.
Essas estratégias permitem administrar proativamente os riscos de compliance no setor automotivo, protegendo a empresa e promovendo uma cultura de integridade e responsabilidade consciente.
LC: Na sua experiência, como evoluiu a abordagem de compliance no setor automotivo e quais boas práticas você recomenda para mitigar riscos jurídicos e regulatórios?
MD:
Somos líderes globais no setor e gostamos de fazer negócios de forma segura, responsável e com o mais alto grau de legalidade com os terceiros com quem fazemos negócios. Isso é importante para contextualizar um pouco a evolução em um setor que costuma ser formado por empresas familiares, com uma cultura de controle e compliance mais simplificada.
Ao falar de evolução, é preciso mencionar as equipes de “Auditoria Interna, Controle Interno e Compliance”, responsáveis pelo controle e compliance na empresa e que desempenham um papel fundamental no nosso setor. Para que essas áreas tenham sucesso, precisam conhecer o negócio e implementar controles, processos e políticas adaptados ao país e ao público-alvo. Assim, conseguimos não apenas gerar um impacto positivo, mas também tornar esse trabalho parte da estrutura operacional do negócio.
LC: Como você equilibra as exigências do ambiente corporativo automotivo com o respeito à ética profissional em sua função gerencial?
MD:
Essa pode ser uma das minhas perguntas favoritas e uma das que mais gosto de responder, porque representa um desafio para o advogado responsável pelo programa de compliance. Precisamos sair da zona de conforto e compreender e conhecer o processo, o setor ou a área de negócios que nosso procedimento vai impactar.
O equilíbrio depende, principalmente, de conhecer o negócio e também de entender o Compliance como ele é: um grande aliado do negócio, não algo impositivo ou rígido. Além disso, saber comunicar e simplificar os temas facilita sua implementação e a compreensão pelos colaboradores — “falar a mesma língua”. Pessoalmente, considero que essa é a única forma de gerar um impacto positivo e desenvolver uma cultura de controle por convicção, e não por obrigação.
LC: Quais fatores você considera fundamentais para seu sucesso no setor e como acredita que o papel das mulheres nessa indústria evoluiu?
MD:
A chave para o sucesso e a continuidade de qualquer líder, independentemente do gênero, é a constância, o trabalho em equipe, o conhecimento sólido e a humildade. Sem esses elementos, um líder não consegue formar equipes sólidas e de alto desempenho. Acima de tudo, é preciso ser sempre fiel aos próprios princípios éticos e pessoais, que são postos à prova quando chega a hora de tomar decisões.
Considero que está cada vez mais comum ver mulheres em funções antes dominadas por homens. Isso não tem a ver com igualdade de condições, gênero ou um caminho rumo a um futuro equitativo. Acredito que isso se deve à forma como as mulheres conseguiram demonstrar a diferentes setores que podem ocupar posições de liderança e agregar muito valor, conhecimento e experiência às mesas de decisão.
No caso específico da Inchcape, houve uma mudança nas Américas: hoje, 36% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres e, na CARCAM, esse percentual é de 44%.
LC: Com sua formação jurídica e exercendo uma função estratégica e de grande impacto em um setor tradicionalmente dominado por homens, quais foram os maiores desafios ou obstáculos que você enfrentou ao longo da carreira?
MD:
Gosto de falar sobre cultura organizacional — sim, organizacional, e não do ponto de vista do país em que trabalho. Até hoje, tive a sorte de trabalhar em setores nos quais a presença masculina é maior que a feminina, e, em sua maioria, essas foram experiências de muito respeito e trabalho em equipe.
Preciso ser honesta e dizer que um dos desafios que enfrentei foi a necessidade constante de demonstrar minha capacidade. Trabalhar em setores com uma cultura profissional competitiva torna isso bastante comum para as mulheres.
O desafio não é ter colegas ou líderes homens, mas fomentar relações profissionais consistentes, baseadas no respeito mútuo, participar de projetos importantes para o negócio e, acima de tudo, nunca deixar de lado o autocuidado, priorizar o bem-estar pessoal e estabelecer limites com o mais alto padrão ético e de respeito mútuo. Esses são alguns dos desafios que exigem esforço e determinação, mas também podem levar a um crescimento significativo, tanto pessoal quanto profissional, contribuindo para uma mudança positiva no setor a partir da minha atuação como mulher.
LC: Que conselho você daria às futuras gerações de advogadas que queiram se desenvolver em setores tão competitivos?
MD:
Meu melhor conselho é: não tenham medo de trabalhar em ambientes dominados por homens. Busquem mentores dentro da organização, não apenas na área de compliance, mas também no negócio. O melhor presente que recebi na vida profissional foi contar com líderes experientes, grandes profissionais que me formaram e orientaram meu crescimento ao longo da carreira.
Por fim, lembrem-se de que todo esforço é recompensado. O crescimento profissional não acontece de forma acelerada: tenham paciência, sejam corajosas e nunca hesitem em apresentar uma ideia, sempre com firmeza e respeito. Acima de tudo, gerem um impacto positivo nas empresas.
O advogado deve ser dinâmico e conhecer o negócio para não se limitar a estruturas e contribuições com um percentual jurídico que não dialogue com o negócio e a realidade operacional.
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