Entrevista
Inspiring Women in Law: uma conversa com Julissa Reynoso
Como parte da série Inspiring Women in Law da Latin Counsel , destacamos Julissa Reynoso Pantaleón, advogada, diplomata e pioneira cuja carreira abrange os mais altos níveis do serviço público e da prática jurídica internacional.

Como parte da série Inspiring Women in Law da Latin Counsel, destacamos Julissa Reynoso Pantaleón, advogada, diplomata e pioneira cuja carreira abrange os mais altos níveis do serviço público e da prática jurídica internacional.
A trajetória de Julissa, da República Dominicana à liderança diplomática e jurídica, é um testemunho de resiliência, intelecto e determinação. Como sócia do Winston & Strawn e ex- embaixadora dos Estados Unidos na Espanha e no Uruguai, Reynoso transitou com desenvoltura pelos mundos do direito internacional, da diplomacia e das políticas públicas. Nesta entrevista exclusiva, ela reflete sobre as experiências formativas que moldaram sua visão de mundo, os desafios e as recompensas de suas funções diplomáticas e sua paixão contínua pela justiça e pela defesa de direitos por meio do direito.
Reynoso fala com franqueza sobre seus primeiros anos de vida, sua transição do serviço público para a advocacia privada e como sua bagagem multicultural e multilíngue influencia sua liderança e estratégia jurídica. Da promoção da diversidade na diplomacia à condução de casos complexos de arbitragem em toda a América Latina, sua história é a de uma mulher que rompeu barreiras e abriu espaço para que outras pessoas pudessem liderar. Esta conversa oferece ideias valiosas para aspirantes a advogados, diplomatas e agentes de mudança.
Latin Counsel: Julissa, o que motivou você a seguir carreira no direito?
Julissa Reynoso: Sempre fui apaixonada pela justiça e pelos direitos das pessoas. Sempre procurei promover o que considero justo, então pensei que a melhor maneira, e o melhor caminho, para fazer isso seria estudar direito e me tornar advogada.
Latin Counsel: Você cresceu na República Dominicana antes de se mudar para os Estados Unidos ainda criança. Como descreveria sua infância e quais experiências acredita que mais influenciaram sua trajetória profissional?
Julissa Reynoso: Nasci na República Dominicana e me mudei para os Estados Unidos quando tinha sete anos. Cresci em uma família muito grande, em uma comunidade forte, unida e solidária, na qual as pessoas cuidavam umas das outras e atendiam às necessidades do bairro. Havia muita troca, colaboração e apoio mútuo. Mas também havia muitos desafios. Havia pobreza e, pelo menos no Bronx, um alto índice de criminalidade, além de um sentimento mais amplo de injustiça. Todas essas experiências moldaram minha infância e influenciaram meu interesse pelo trabalho ao qual acabei decidindo me dedicar.
Latin Counsel: Se não tivesse seguido carreira no direito, que outro caminho acredita que teria escolhido e por quê?
Julissa Reynoso: Eu queria ser cientista! Eu era muito boa em matemática, então, quando jovem, pensei que esse poderia ser o meu caminho.
Latin Counsel: Você fez história ao se tornar a primeira mulher embaixadora dos Estados Unidos na Espanha. Quais foram os principais desafios que enfrentou nesse cargo?
Julissa Reynoso: A Espanha foi um ambiente muito acolhedor para mim. Eu trabalhava para o presidente Biden, e aquela administração estava profundamente comprometida em promover a representatividade do país em todas as suas formas, então me senti muito à vontade trabalhando para o Departamento de Estado. Já havia trabalhado lá antes, e a comunidade da embaixada foi muito acolhedora. A Espanha, tanto o país quanto o governo, também foi extremamente calorosa e atenciosa, então, sinceramente, não consigo pensar em nenhum problema importante.
Latin Counsel: Você também trabalhou no Uruguai. Como essa experiência influenciou sua perspectiva?
Julissa Reynoso: Sim, fui embaixadora no Uruguai durante a presidência de Obama. Foi uma experiência muito valiosa, que ampliou minha compreensão da diplomacia internacional.
Latin Counsel: Depois de trabalhar para o governo Biden, você voltou ao Winston & Strawn. O que motivou seu retorno ao escritório?
Julissa Reynoso: Eu já trabalhava no Winston antes de ingressar no governo Biden, então foi como voltar às minhas raízes e para casa. Estou literalmente no mesmo escritório de antes, conhecia os sócios, sabia do calibre dos advogados e conhecia o perfil dos nossos clientes. Por isso, foi uma transição muito natural e tranquila: eu estava voltando a um ambiente familiar.
Latin Counsel: Como sua experiência em diplomacia e política influenciou sua maneira de abordar os desafios jurídicos atuais?
Julissa Reynoso: Tudo contribui para sua capacidade de resolver problemas. Como pessoa dedicada à política e funcionária do governo, seja como responsável pela formulação de políticas, diplomata ou negociadora, você recorre a todas essas experiências. O cérebro funciona de uma maneira que permite enxergar os problemas de uma perspectiva muito mais multifacetada e matizada.
Tudo o que fiz contribui para minhas habilidades de resolução de problemas. A diplomacia e o trabalho com políticas públicas exigem que se vejam os problemas de várias perspectivas, o que faz de você uma advogada e estrategista melhor. Além disso, continuo usando minhas habilidades jurídicas todos os dias, seja em negociações ou em análises jurídicas.
Fui advogada, sou advogada e também fui advogada enquanto trabalhava como diplomata. Não se deixa de ser advogada, seja exercendo a advocacia ou fazendo outra coisa no dia a dia, no cargo ou na profissão. Portanto, como diplomata, certamente usei minhas habilidades jurídicas e minha forma de pensar para, espero, ser uma diplomata melhor, uma gestora melhor e uma funcionária pública melhor.
Latin Counsel: Agora que voltou ao escritório, sente mais liberdade em comparação com o período na diplomacia?
Julissa Reynoso: É diferente, sabe? Como embaixadora, você é diplomata, mas também precisa administrar uma operação com muitos componentes diferentes. O trabalho é muito variado: vai de questões relacionadas à agricultura e ao combate ao narcotráfico até as Nações Unidas; há de tudo. Então, você está constantemente aprendendo sobre diversos temas e trabalhando para garantir que os interesses dos Estados Unidos sejam promovidos. É uma função muito dinâmica. É muito diversificada.
Aqui no escritório, também lidamos com casos, questões e clientes diversos, mas você não é a principal responsável. Você não é a embaixadora nem está encarregada de toda uma operação. Basicamente, presta serviços aos clientes e os aconselha, em vez de tomar decisões.
Latin Counsel: Falando em diversidade, que mudanças você observou na participação das mulheres na diplomacia e no setor jurídico, especialmente na América Latina?
Julissa Reynoso: Acredito sinceramente que, como nação, devemos representar e oferecer oportunidades a todas as pessoas, para que possamos chegar a um ponto em que reflitamos as diversas experiências e perspectivas do país. Acho que nossa forma de pensar evoluiu tanto que será muito difícil voltar estruturalmente a qualquer época passada à qual algumas pessoas acreditem que deveríamos retornar — e não acho que sejam a maioria, especialmente entre os americanos.
A maioria dos americanos acolhe a inclusão, a promoção e a criação de oportunidades. Isso não é apenas o certo a fazer, mas também cria um ambiente mais rico, que favorece grandes ideias, a concorrência e competências sólidas. Hoje, mais pessoas têm capacidade e ferramentas para participar. Quanto mais pessoas tiverem essas ideias e ferramentas, melhores serão os resultados. É matemática, uma questão de números.
Latin Counsel: Como trabalhar em ambientes multiculturais e multilíngues influenciou seu estilo de liderança?
Julissa Reynoso: Sinto-me realmente afortunada por ter tido a oportunidade de estar em diferentes ambientes e interagir com pessoas que têm ideias e experiências diversas. Acho que isso me ajudou a desenvolver a capacidade de conversar com todo tipo de pessoa, o que me permite ser ponderada, atenciosa e compreender melhor o ponto de vista dos outros, sem julgá-los. Procuro ouvir e aprender com as experiências alheias. A capacidade de compreender as perspectivas dos outros, seja como advogada ou diplomata, é fundamental para uma liderança eficaz.
Latin Counsel: Você acha que um ponto em comum entre ser advogada e diplomata é a capacidade de ouvir, seja um cliente ou alguém da comunidade em geral?
Julissa Reynoso: Sim, sem dúvida é preciso se colocar no lugar da outra pessoa, refletir e compreender seu ponto de vista. Isso permite tentar convencê-la a mudar de opinião ou aprender genuinamente com ela e crescer.
Latin Counsel: Você acredita que a diversidade de gênero e cultural enriquece as políticas públicas e a diplomacia internacional?
Julissa Reynoso: Espero que sim! Acho que a identidade das pessoas é formada por suas experiências e que, por meio delas, elas podem se informar melhor sobre suas posições, ideias e pontos de vista. Isso, por sua vez, influencia a maneira como podemos resolver problemas complexos.
Latin Counsel: Voltando ao seu trabalho como advogada especializada em contencioso na América Latina, qual é a importância da arbitragem internacional na resolução de disputas comerciais na região e que futuro você prevê para ela?
Julissa Reynoso: Há muitas oportunidades e uma atividade econômica significativa na América Latina, especialmente nos setores comerciais. À medida que o mundo se tornou muito mais global, transacional e transnacional, há muito mais relações contratuais. Dadas as diferenças de perspectivas e realidades jurídicas entre investidores, parceiros corporativos e acionistas, a arbitragem se tornou cada vez mais o foro preferencial para resolver disputas. Acho que, para quem trabalha com arbitragem, sempre haverá trabalho enquanto continuarem surgindo questões e transações globais.
Latin Counsel: Em quais jurisdições você atua mais atualmente?
Julissa Reynoso: Atualmente, tenho muito trabalho no México, onde somos parceiros estratégicos e há bastante atividade. Também trabalhamos muito com a América Central e o Cone Sul. Essas regiões têm um cenário jurídico e comercial muito dinâmico.
Latin Counsel: Você acha que ainda é mais difícil para as mulheres do que para os homens na profissão jurídica, mesmo quando têm o mesmo talento e a mesma ética de trabalho?
Julissa Reynoso: Os números falam por si. Vemos que os formandos em direito se dividem aproximadamente em partes iguais entre homens e mulheres, mas muitas mulheres decidem abandonar ou não seguir a mesma trajetória profissional. Isso nem sempre se deve a dificuldades; às vezes, é uma decisão consciente de se dedicar a outros interesses. Dito isso, ainda existe a percepção de que determinados cargos devem ser ocupados por certos tipos de pessoas. Embora tenhamos avançado muito, ainda há trabalho a fazer.
Latin Counsel: Para terminar, que conselho daria às jovens que aspiram a liderar em áreas tradicionalmente dominadas por homens, em particular às que trabalham no setor jurídico ou com a América Latina?
Julissa Reynoso: Acho essencial estar aberta a criar seu próprio caminho. Não se sinta obrigada a seguir a mesma trajetória que outras pessoas. É fundamental estabelecer relações com pessoas de diferentes origens e experiências, pois essas conexões podem abrir portas e criar oportunidades. Além disso, é preciso estar aberta a experiências que talvez não sejam típicas ou esperadas, pois às vezes são as mais gratificantes.
Latin Counsel: Obrigada, Julissa, por compartilhar suas ideias e experiências. É inspirador ouvir como sua trajetória e sua carreira moldaram o impacto do seu trabalho.
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