Entrevista
Inspiring Women in Law: uma conversa com María Teresa Jayo, gerente de Direito Empresarial da Beiersdorf
A Latin Counsel teve o prazer de conversar com María Teresa Jayo , gerente de Direito Empresarial da Beiersdorf , cuja trajetória de 17 anos ilustra a transição bem-sucedida do exigente universo notarial mexicano para o dinâmico Direito Corporativo multinacional.

Latin Counsel teve o prazer de conversar com María Teresa Jayo, gerente de Direito Empresarial da Beiersdorf, cuja trajetória de 17 anos ilustra a transição bem-sucedida do exigente universo notarial mexicano para o dinâmico Direito Corporativo multinacional. Natural de Veracruz e radicada na Cidade do México, Jayo é uma líder regional com uma visão clara sobre ética e gestão.
Para Jayo, a equipe jurídica deve ser a "arquiteta da integridade" da organização, promovendo uma cultura ética que vá além do puramente regulatório. Ela ressalta que a diversidade (cultural, de gênero e de experiência) não é um objetivo aspiracional, mas uma vantagem competitiva que amplia as perspectivas na tomada de decisões estratégicas.
Sua mensagem às jovens advogadas é direta: acreditem na própria voz, busquem mentoras e não esperem permissão para ocupar o espaço que lhes cabe. A meta de María Teresa Jayo é continuar contribuindo para a formação de equipes jurídicas influentes e modernas, que atuem como motores de mudança na sociedade.
LATIN COUNSEL: O que a levou a estudar Direito e que tipo de impacto social ou profissional buscava alcançar com essa escolha?
María Teresa Jayo: Desde muito pequena, eu me sentia atraída pela precisão, pela ordem e pela clareza das regras em todas as áreas da minha vida.
Também tinha uma profunda curiosidade para entender como uma sociedade consegue conviver em harmonia, além de um forte senso de justiça e equidade.
Com o tempo, durante meus estudos pré-universitários, descobri que as matérias relacionadas ao Direito me vinham naturalmente, o que foi revelando, de forma cada vez mais evidente, que esse era o caminho profissional que eu queria seguir.
LATIN COUNSEL: Se não tivesse seguido a carreira jurídica, que outra carreira ou profissão teria escolhido e como acredita que essa escolha se conectaria à sua motivação atual?
María Teresa Jayo: Sempre tive uma veia artística herdada do meu pai. Por isso, se não tivesse seguido a carreira jurídica, provavelmente teria optado por uma carreira ligada às artes plásticas ou à literatura.
Escrever e criar sempre foram atividades de que gosto muito, e essa paixão por comunicar, observar detalhes e expressar ideias de forma clara e estruturada se conecta diretamente à minha motivação atual na área jurídica.
Em muitos sentidos, o Direito também é uma arte: exige criatividade, precisão e capacidade de contar histórias de forma convincente, habilidades que, sem dúvida, eu teria desenvolvido de outra maneira em uma trajetória artística.
LATIN COUNSEL: Qual foi a maior lição ou o maior desafio pessoal que precisou superar para chegar à sua posição atual como gerente de Direito e Negócios na Beiersdorf?
María Teresa Jayo: A maior lição e o maior desafio que enfrentei para chegar à minha posição atual como gerente de Direito e Negócios na Beiersdorf foram aprender a não ter medo e a me manter em constante preparação.
Entendi que o verdadeiro sucesso surge quando a preparação encontra a oportunidade e que cada desafio é uma oportunidade para crescer e fortalecer habilidades.
LATIN COUNSEL: Se pudesse dar um conselho à María Teresa que se formou em Direito, qual seria?
María Teresa Jayo: Eu diria a ela que aja sem medo e confie em si mesma.
Sempre haverá caminhos e trabalhos melhores ou piores, fáceis ou desafiadores, assim como colegas.
Aprende-se e cresce-se com cada experiência.
É fundamental investir na preparação técnica e, ao mesmo tempo, desenvolver habilidades interpessoais e pensamento estratégico, porque ambas as dimensões são essenciais para construir uma carreira jurídica bem-sucedida e de impacto.
LATIN COUNSEL: A senhora liderou equipes jurídicas em contextos corporativos e na prática notarial. Como descreveria seu estilo de liderança e o que mais valoriza em um membro da equipe?
María Teresa Jayo: Nas oportunidades que tive de liderar equipes, diria que meu estilo se baseia na liderança situacional: adapto minha abordagem à maturidade, às competências e às necessidades de cada equipe, incorporando elementos de diferentes estilos quando necessário.
Ainda assim, considero que predominam em mim as abordagens democrática e transformacional, pois acredito firmemente na importância de ouvir ativamente, incentivar a participação e motivar as pessoas a alcançar seu pleno potencial.
Em um membro da minha equipe, valorizo especialmente a proatividade, a integridade e a disposição para aprender e colaborar, pois são qualidades que fortalecem não apenas os resultados, mas também a cultura e a coesão da equipe
LATIN COUNSEL: Em sua função regional, a senhora interage com diversas entidades e culturas na América Latina. Como promove a inclusão e a colaboração entre equipes com idiossincrasias e marcos legais tão distintos?
María Teresa Jayo: Adoro me conectar com as pessoas e gosto muito dessa parte da minha função.
Embora a maioria de nós fale espanhol e o idioma nos una, interagir em diferentes regiões é, sem dúvida, um desafio. Nossas culturas, contextos sociais e idiossincrasias nos tornam muito diferentes e, claro, há desafios na colaboração. Para promover uma boa colaboração e comunicação, procuro ser muito transparente ao me comunicar e demonstrar abertura e boa vontade.
Também acredito que é fundamental deixar à vontade as pessoas com quem estamos colaborando e fazer com que se sintam seguras ao nosso lado.
Outro aspecto que considero importante é ser honesta e direta quando algo não está claro, é ambíguo ou gera dúvidas.
Ao lidar com diferentes ambientes e culturas, não há pergunta ou comentário bobo, porque ambas as partes — quem pergunta ou comenta e quem ouve e responde — aprendem.
LATIN COUNSEL: Em relação à padronização de processos, de que maneira a sensibilidade cultural foi fundamental para implementar essas mudanças com sucesso em toda a região CAMEX-ANDEAN?
María Teresa Jayo: A padronização só é bem-sucedida quando não é percebida como uma imposição alheia à realidade local. Na região CAMEX-ANDEAN, a sensibilidade cultural foi determinante.
Ouvimos atentamente como cada mercado operava, entendemos suas particularidades regulatórias e sociais e construímos soluções comuns respeitando essas diferenças. Não se tratou de copiar e colar um modelo de trabalho, mas de construir e padronizar modelos e formas de trabalho em conjunto, com respeito, empatia e visão regional.
LATIN COUNSEL: Qual acredita ser a responsabilidade da liderança jurídica na promoção de uma cultura de compliance e ética que vá além do puramente regulatório?
María Teresa Jayo: As equipes jurídicas devem ser arquitetas da integridade em cada organização. Isso implica antecipar riscos, promover conversas difíceis e dar o exemplo de comportamentos éticos consistentes. As normas estabelecem o mínimo; a cultura ética define o padrão que aspiramos alcançar como empresa, e esse padrão é liderado com exemplo, coerência e coragem
LATIN COUNSEL: Como acredita que a diversidade de perspectivas (cultural, de gênero e de experiência) impacta a tomada de decisões estratégicas em uma multinacional como a Beiersdorf?
María Teresa Jayo: O impacto é positivo. A diversidade não é um objetivo aspiracional; é uma vantagem competitiva. Em organizações globais como a Beiersdorf, a diversidade cultural, de gênero e de experiências amplia nossa compreensão do negócio, reduz vieses e traz perspectivas mais abrangentes para a tomada de decisões. A inovação nasce de olhar os problemas por diferentes ângulos. Quando as equipes refletem a pluralidade dos consumidores que atendemos, nossas decisões são mais relevantes, humanas e eficazes.
LATIN COUNSEL: Quais considera serem os maiores obstáculos que as mulheres ainda enfrentam para chegar a cargos de liderança jurídica na América Latina?
María Teresa Jayo: Embora tenhamos avançado, persistem barreiras estruturais que limitam o acesso das mulheres a cargos de liderança jurídica na região.
Entre elas, destacam-se os vieses inconscientes, a falta de acesso a redes de influência e as expectativas desproporcionais de disponibilidade total, que dificultam a paridade de gênero. Um exemplo são as licenças-maternidade, que em muitas legislações são diferentes para homens e mulheres. Se considerarmos um lar formado por um casal cisgênero, por exemplo, essa diferença impede que os homens exerçam a paternidade e faz com que a mulher assuma integralmente o custo profissional de ter filhos. Por fim, há pouca visibilidade e, sobretudo, reconhecimento do talento feminino em etapas decisivas do desenvolvimento profissional. O desafio já não é a capacidade, que está comprovada, mas desmontar os mecanismos que mantêm essas desigualdades e ampliar a consciência sobre a inclusão, para que as organizações e as pessoas não a tratem como uma mera questão de cumprir uma cota.
LATIN COUNSEL: Em sua experiência, que iniciativas ou políticas corporativas se mostraram mais eficazes para promover a equidade de gênero no setor jurídico?
María Teresa Jayo: As iniciativas mais eficazes são aquelas que se traduzem em mudanças reais e mensuráveis.
Entre elas, destacam-se:
- Programas de liderança feminina com métricas claras.
- Políticas de flexibilidade efetiva (não apenas no papel).
- Processos de promoção livres de vieses.
- O sponsorship, e não apenas o mentoring, também é fundamental para abrir oportunidades de visibilidade e reconhecimento, assim como a capacitação sobre vieses inconscientes.
A equidade se alcança quando a política se transforma em prática e a prática, em cultura empresarial.
LATIN COUNSEL: Teve mentores importantes ao longo da carreira? Qual é o papel do mentoring no desenvolvimento profissional das mulheres, especialmente em funções regionais?
María Teresa Jayo: Sim, tive mentoras e mentores que abriram portas e me desafiaram a crescer.
O mentoring é essencial, especialmente em funções regionais e em grandes estruturas organizacionais: ajuda a lidar com a complexidade, ganhar confiança e acelerar o desenvolvimento. Para as mulheres, é ainda mais importante, pois também é uma ferramenta para romper barreiras invisíveis, consolidar-se na posição e transformar trajetórias profissionais.
LATIN COUNSEL: De que maneira a experiência como professora de Direito moldou sua visão sobre inclusão e sobre a necessidade de formar advogados com uma perspectiva mais ampla da sociedade?
María Teresa Jayo: Ser professora me ensinou que formamos advogados para a sociedade, não apenas para o mercado. O trabalho com estudantes me mostrou a importância de ensinar pensamento crítico, sensibilidade humana, empatia e inclusão, além de me tornar mais consciente do exemplo que dou e do impacto que minhas ações têm, por mais simples que pareçam. Hoje, é essencial que as equipes jurídicas tenham uma visão abrangente, ética e social.
LATIN COUNSEL: Sua função regional é bastante exigente. Como concilia as demandas do cargo com a vida pessoal e que estratégias adota para manter esse equilíbrio?
María Teresa Jayo: Isso exige muita consciência sobre minha vida, sobre o que quero para mim e sobre o que me faz ser eu mesma. Procuro sempre administrar minhas prioridades com intenção e disciplina, estabeleço limites saudáveis e faço parte de uma equipe de trabalho autônoma. Planejo a semana e, ao fim do expediente, faço uma desconexão consciente e sigo rituais pessoais que protegem meu bem-estar, para aproveitar os outros aspectos da minha vida. Tudo isso me permitiu viver cada momento da minha vida plenamente e com intensidade, inclusive o trabalho e o desenvolvimento profissional. A sustentabilidade profissional não se alcança com mais horas, mas com decisões melhores e mais conscientes e com o apoio de equipes sólidas.