Entrevista
David Gutiérrez (BLP): Construindo pontes de oportunidades entre a América Central e os Emirados Árabes Unidos
A Latin Counsel teve o prazer de entrevistar David Gutiérrez, sócio fundador da BLP, após sua recente e significativa mudança com a família de Madri para Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU).

A Latin Counsel teve o prazer de entrevistar David Gutiérrez, sócio fundador da BLP, após sua recente e significativa mudança com a família de Madri para Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU).
Gutiérrez, que teve papel fundamental na consolidação da BLP como um dos escritórios líderes na América Central e continuará à frente do escritório da firma em Madri, abriu as portas para sua nova vida no Golfo Pérsico.
Após três meses na região, David compartilhou uma análise privilegiada que vai além do aspecto pessoal. Nesta entrevista, ele detalha suas impressões sobre a qualidade de vida em Abu Dhabi — incluindo a adaptação da família e o ambiente de tolerância—, a segurança e a eficiência institucional que caracterizam os EAU e o dinâmico ambiente de negócios. Além disso, explica a ambição dos Emirados de se tornar um hub global e como pretende construir pontes de investimento e proteção patrimonial entre o capital do Golfo e a América Central, alinhando sua missão pessoal à visão estratégica da BLP.
Latin Counsel: Três meses é pouco tempo, mas suficiente para uma primeira imersão. Qual é sua impressão geral dos Emirados Árabes Unidos após a mudança de sua família para Abu Dhabi?
David Gutiérrez: Embora três meses não pareçam muito, foram suficientes para descobrir um país extraordinário: moderno, seguro e ambicioso, decidido a construir o futuro com estratégia, método e determinação.
Latin Counsel: Os EAU são conhecidos pela proporção muito elevada de expatriados. Como é viver no dia a dia nessa “sociedade feita de estrangeiros”?
David Gutiérrez: Os Emirados são o país com a maior proporção de expatriados do mundo. Dos 11 milhões de habitantes, cerca de 10 milhões somos estrangeiros: impressionantes 88% da população. Em nenhum outro país os cidadãos locais representam uma minoria tão pequena, o que explica o ambiente internacional, diverso e tolerante que se respira nas ruas. Viver aqui é entender que quase todos somos convidados. É preciso seguir as regras e respeitar a cultura do país que nos acolhe, independentemente de onde viemos ou dos costumes que trazemos. A convivência entre muitos convidados e poucos anfitriões ocorre em total harmonia, criando um ambiente extraordinariamente cordial, generoso e civilizado.
Latin Counsel: Em um país tão diverso, qual é o idioma dos negócios e da vida cotidiana?
David Gutiérrez: O idioma universal é o inglês. Embora o árabe seja a língua oficial, toda a vida — os negócios, o governo, os serviços — funciona em inglês. Nada se complica: o importante é se comunicar e fazer com que tudo flua e funcione. Pragmatismo em estado puro.
Latin Counsel: Como executivo e empreendedor, quão palpável é a reputação dos EAU como “terra de oportunidades”?
David Gutiérrez: Uma das principais razões pelas quais tantos estrangeiros decidem vir morar aqui são as oportunidades profissionais e de empreendedorismo. Os EAU se tornaram um dos lugares do mundo com mais opções para empreendedores, executivos e empresas. O ambiente é competitivo, mas também colaborativo: todos estamos aqui para crescer, e essa energia é contagiante. Em 2024, o país recebeu quase US$ 50.000 milhões em investimento estrangeiro direto, com tendência de crescimento de dois dígitos. Ocupa o segundo lugar mundial em número de novos projetos greenfield e está entre os dez países com maior confiança para investir. Só em 2023, foram emitidos 158.000 golden visas para investidores, profissionais e empreendedores. Tudo faz parte de uma estratégia nacional para atrair talentos, capital e tecnologia de todos os cantos do planeta.
Latin Counsel: Os EAU são amplamente conhecidos por sua cultura de ambição e excelência. Como o desejo de ser “o melhor do mundo” se traduz na execução de projetos e na mentalidade de trabalho observada no país?
David Gutiérrez: Provavelmente não existe outro país onde se respire tanto o desejo de ser o melhor do mundo. O edifício mais alto, o maior aeroporto, o porto mais eficiente, as companhias aéreas mais premiadas. Essa ambição não é percebida como arrogância, mas como uma energia coletiva: aqui, as coisas são feitas para serem as melhores ou simplesmente não são feitas. E essa visão se concretiza com talentos internacionais. Os EAU não hesitam em trazer especialistas e profissionais de qualquer parte do mundo para alcançar suas metas. É mais uma prova de sua abertura e pragmatismo.
Latin Counsel: Diante dessa posição estratégica e de sua experiência na BLP, quais caminhos pretende abrir para trazer negócios dos Emirados Árabes Unidos para o escritório e como isso se conecta à América Central?
David Gutiérrez: Tenho vários objetivos. Em primeiro lugar, servir de ponte entre as necessidades de capital da América Central — e de alguns países da América do Sul — e as amplas oportunidades de financiamento existentes nos Emirados Árabes Unidos. Não se trata apenas dos grandes fundos soberanos, mas também de fundos privados menores e especializados, family offices e gestores de investimentos que buscam diversificar seus portfólios em regiões estáveis e em crescimento.
Em segundo lugar, posicionar os Emirados como uma jurisdição ideal para a estruturação e a proteção patrimonial de empresas e famílias da América Latina e da Europa. A combinação de clareza regulatória, estabilidade política e uma rede excepcional de tratados internacionais permite à BLP assessorar nossos clientes em seu planejamento e expansão global, garantindo que qualquer fluxo de investimento ou negócio para a América Central seja conduzido com a máxima eficiência jurídica e tributária.
Além disso, buscamos fortalecer as pontes institucionais que conectam as duas regiões, como é o caso da Dubai Chambers e dos business councils. Um exemplo é o Dubai–Costa Rica Business Council, do qual tenho a honra de ser secretário-geral e que busca promover o comércio, o investimento e o entendimento mútuo entre os setores empresariais dos dois países. Paralelamente, promovemos iniciativas regionais europeias e latino-americanas com o mesmo propósito de conectar continentes e gerar desenvolvimento sustentável. Também há iniciativas muito interessantes de entidades às quais estou bastante ligado, como a World Law Foundation e a Georgetown University.
Em síntese, minha missão nos Emirados está alinhada à visão da BLP: construir pontes onde antes não havia, abrir caminhos para investimentos e gerar segurança jurídica entre regiões que, embora geograficamente distantes, compartilham valores de estabilidade, crescimento e visão de futuro.
Latin Counsel: Segurança e qualidade de vida são temas recorrentes. O que você observou em termos de ordem e eficiência institucional?
David Gutiérrez: O apreço pelas regras é outra característica notável. Nos Emirados, tudo exige licença ou autorização, e as normas são aplicadas com rigor, mas sem atritos. O resultado: um dos países mais seguros do planeta. Abu Dhabi ocupa o primeiro lugar mundial nos índices de segurança; Dubai, o segundo. Não há policiais armados em cada esquina, mas a tecnologia, as câmeras e a eficiência do sistema jurídico geram uma sensação de ordem e tranquilidade difícil de descrever. Além da segurança, a qualidade de vida é excepcional. O PIB per capita (ajustado pelo poder de compra) gira em torno de US$ 80.000, e o país ocupa a 15ª posição mundial — e a primeira entre os países árabes — no Índice de Desenvolvimento Humano (0,940, segundo o UNDP). Saúde, educação, infraestrutura e bem-estar são pilares sólidos de um modelo que funciona.
Latin Counsel: Do ponto de vista de um sócio de um escritório de serviços profissionais, quão eficiente é a interação com o Estado e a operação diária?
David Gutiérrez: Abrir uma conta bancária leva menos de 10 minutos. A velocidade da internet está entre as mais altas do mundo. A interação com o Estado é quase totalmente digital, e a atitude dos funcionários públicos é ajudar, não criar obstáculos. Aqui não há ressentimento em relação ao setor privado: ele é considerado um parceiro essencial do desenvolvimento nacional.
Latin Counsel: Os EAU estão fortalecendo seus laços comerciais com a América Latina. Como funciona a rede de tratados e o posicionamento do país como um hub global?
David Gutiérrez: Um dos pilares discretos do sucesso dos Emirados é sua rede global de acordos fiscais e comerciais. Em 2024, o comércio exterior dos EAU quase chegou a US$ 1,5 trilhão, 49% a mais que em 2021. O país assinou mais de 140 tratados para evitar a dupla tributação (DTTs) e mais de 100 acordos bilaterais de proteção de investimentos (BITs), figurando entre os países com mais tratados em vigor no mundo. Os acordos incluem economias importantes como Espanha, França, China, Índia, Reino Unido, Estados Unidos e boa parte da América Latina. A isso se somam os novos acordos de parceria econômica abrangente (CEPA), uma geração moderna de tratados comerciais que os EAU assinaram com Costa Rica, Colômbia e Chile, consolidando seu papel como ponte natural entre Ásia, Europa e América Latina. Dubai e Abu Dhabi se tornaram hubs naturais para empresas de trading, holdings e family offices que administram operações em vários continentes. Clareza regulatória, estabilidade política e uma rede global de tratados explicam por que os EAU são hoje um dos destinos mais atraentes para o investimento estrangeiro.
Latin Counsel: Após a mudança de Madri para Abu Dhabi, como foi o processo de adaptação para você e sua família, e quais aspectos concretos da cidade vocês mais valorizam na nova qualidade de vida?
David Gutiérrez: A adaptação foi surpreendentemente tranquila. Abu Dhabi oferece uma qualidade de vida extraordinária, tanto em termos de segurança quanto de serviços e infraestrutura. Meus filhos estudam em uma escola internacional com alunos de mais de 100 nacionalidades, o que ampliou sua visão de mundo e seu senso de tolerância. Minha esposa e eu valorizamos muito o ambiente familiar: tudo é pensado para que as famílias se sintam à vontade, dos espaços públicos às atividades culturais e esportivas. A cidade combina modernidade e serenidade; tem um ritmo humano, organizado e respeitoso. Viver aqui em família tem sido uma experiência profundamente enriquecedora.
Latin Counsel: Para terminar, qual é sua reflexão após essas primeiras 9 semanas e que som ou imagem define sua experiência até agora?
David Gutiérrez: A clareza estratégica dos líderes dos Emirados é admirável. Eles têm um plano e o seguem. Buscam diversificar a economia, atrair empresas de tecnologia e start-ups, turismo e capital, e consolidar o país como um hub global de inovação. É um modelo de disciplina, abertura e visão. Um dos detalhes mais evocativos da vida aqui é o adhān, o chamado para a oração que soa 5 vezes por dia. Ele marca uma pausa natural no ritmo urbano: um lembrete de que o tempo passa e de que, por um instante, vale a pena parar. Um exercício de mindfulness em meio ao dinamismo. Nove semanas bastam para confirmar que os Emirados Árabes Unidos são um país admiravelmente planejado e excepcionalmente administrado. Sua verdadeira riqueza está na inteligência coletiva e na cordialidade e riqueza humana de seus habitantes.



